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Coluna | Só um adendo | Aos bons e velhos tempos


Aos bons e velhos tempos

As vezes eu tenho certeza que nasci na época errada. Tenho um gosto peculiar que infelizmente tem caído em desuso: filmes em preto e branco, cinema mudo, produções tão longas que possuem um intervalo em sua metade. Sabe aquelas introduções que detalham todo o pessoal que trabalhou no filme? Quanto maior melhor. E o final? Tendo a imagem do ator encarnado em seu personagem do longa, com a identificação de ambos, estou feliz. 

Porém é raro nos dias atuais encontrar filmes assim. Não culpo os grandes estúdios, afinal o lucro futuro é visado desde a escolha dos projetos, então pela lógica: sem público, não há filme. Estou com saudades de longas assim, que alimentam o nostálgico que habita em mim. Não me veja como um velho amargurado que, raivoso com o cinema atual, quer estabelecer um posicionamento de que somente filmes antigos prestam e o restante é lixo. 

Pelo contrário, sou um apreciador da sétima arte como um todo. Esse texto se trata de alguém ansiando que esse estilo não se perca nas areias do tempo. Toda essa bela forma de se fazer cinema está, por puro desconhecimento, em perigo de extinção. Então, qual a melhor forma de fazer jus a toda essa tradição, do que relembrando-a?

Selecionei três décadas: 50, 60 e 70 para nossa viagem. Critérios? Filmes que de alguma forma marcaram minha relativamente curta vida cinéfila. Tem um dos meus hitchcockianos favoritos, um musical muito a frente de seu tempo, meu primeiro épico de quase quatro horas, um roubo em capítulos e um suspense policial eletrizante. Quer saber? Vamos apostar: até o fim deste texto, você vai se render a nostalgia. Vai vendo.

O Rei e Eu (1956):

Sem sombra de dúvidas um dos musicais mais incríveis que já vi. Quando o assisti pela primeira vez, não esperava nada demais do que a mesma velha história clichê: monarca se apaixona por plebéia e juntos vivem felizes para sempre. Aqui não. O septuagenário longa vai muito além, transformando o que poderia ser uma trama rasa em um enredo profundo e repleto de camadas. Ao longo de suas pouco mais de duas horas, o filme te leva a refletir sobre diversidade, machismo e remição.

Recheado dos mais belos números musicais, a sonoridade do filme é alegre e contagiante, rendendo momentos divertidos frente ao choque cultural inevitável entre plebe e realeza. As divergências resultam no crescimento de ambos os protagonistas, proporcionando uma bela lição sobre respeito e aceitação, que culmina na tocante cena de redenção do rei. Belíssima produção, atual e relevante mesmo nos dias atuais.

Intriga Internacional (1959): 

Inesquecível. A começar pela brilhante sequência de créditos iniciais, com uma das trilhas sonoras mais marcantes da história do cinema, Intriga Internacional é uma das melhores produções de Alfred Hitchcock, e isso quer dizer muito. O enredo repleto de suspense causa palpitações a cada momento, com cenas historicamente lembradas e copiadas. Da brilhante sequência de perseguição com o avião ao corte sensacional da cena final, tudo é magistralmente orquestrado para proporcionar a mais intensa experiência cinematográfica. É teste para cardíaco!

O diretor conduz o filme com o compasso de um maestro, elevando as interpretações dos protagonistas e enaltecendo o irretocável roteiro escrito por Ernest Lehman, roteirista indicado seis vezes ao Oscar e que infelizmente nunca venceu. A agonizante trama em conjunto com a direção afiada do mestre do suspense, fez do longa uma inspiração para inúmeras produções vindouras, refletindo até mesmo em produções atuais. É o ABC do suspense vitalício: enalteço-o sem moderação.

Lawrence da Arábia (1962):

Possivelmente um dos maiores filmes de toda a história cinematográfica. E nem estou me referindo ao longo tempo de duração (3h48m!), mas sim da grandeza inegável deste épico da sétima arte. O enredo biográfico conta a história do protagonista de forma detalhista e fluída, não deixando-se pesar as horas de filme. Tendo como pano de fundo os impressionantes desertos da península arábica, a cinematografia é lembrada – até os dias atuais – como uma das mais belas já realizadas, com longos planos abertos e transições espetaculares, como o apagar de um fósforo para o nascer do sol.

A interpretação de Peter O’Toole é marcante e visceral, tanto nos momentos de conquistas onde se vê a intensidade brilhar em seu olhar, quanto no realismo cruel das cenas de tortura e perda. Considerada por muitos como a melhor interpretação masculina da história do cinema, te faço o convite para você embarcar nessa jornada e decidir por si próprio se realmente é ou não. Minha opinião? Ponto de exclamação.

Operação França (1971):

Produção datada do início da década de setenta, é facilmente vista como um ponto de virada no tradicionalista gênero policial. Repleto de cenas inventivas e originais, as perseguições de carro são um primor para o público, gravadas com realismo e ruído necessários para se fazerem as mais imersivas possíveis. A intencionalidade do diretor aqui em retratar de forma crível a vivência suja das ruas nova-iorquinas, é outro dos grandes acertos da produção que possui em sua essência o caráter expositivo e não tendencioso.

Apesar de brutalmente frenético, o longa ainda possibilita a criação de densas camadas aos seus protagonistas, o que faz com que o medo da perda seja frequente já que a brilhante edição induz o receio ao público. O encaminhamento final comporta todos os tipos de públicos, ocasionando alívio aos que apreciam a justiça sendo feita, prazer ao público que anseia pelo realismo acima de tudo e a curiosidade daqueles imaginativos como eu que até hoje pensam sobre o autor daquele disparo final. Quem será que foi?

Golpe de Mestre (1973):

Talvez o último dos “clássicos”, este longa é a definição deste termo com toda a certeza. Estrelado por uma dupla sensacional (Robert Redford e Paul Newman), o enredo é dividido em capítulos que juntos formam uma brilhante história repleta de suspense, sequências de aventura hipnóticas e com a dose ideal de comédia. Leve e marcante, a trama deixa o sabor saudoso da nostalgia cinéfila marcar a percepção do público, levando-o até uma época considerada por muitos como a de “ouro” do cinema.

Ouro, prata ou qualquer outro metal precioso, o que realmente importa é que o muitas vezes esquecido longa, lançado entre as parte I e II de O Poderoso Chefão, merece nossa admiração. Não somente pelos aspectos técnicos impecáveis, como a trilha sonora original que conduz o filme com precisão, ou pela direção de arte e figurino que, nos mais ínfimos detalhes, adentra o mais profundo território de imersão. O filme requer nosso apego pela coragem de ser, em um período tão progressista, aquilo que aqui buscamos: ele é nostálgico. E aí? Já quer viajar no tempo não é? Não o culpo, pois farei o mesmo. De novo. E novamente e, bem, vocês já entenderam.

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